Corpo presente é o mergulho radical de um homem em suas obsessões. Seu narrador atravessa ruas, noites e mulheres em busca de um amor perdido ou impossível, uma Carmen que não é de ópera ou ficção, mas da Copacabana suja e sedutora, cenário claustrofóbico deste primeiro romance de João Paulo Cuenca.

Tragado pelas noites, ofuscado pelo sol, o protagonista vive um presente contínuo e tenso em busca de sentimentos para sempre perdidos num mundo cínico demais, violento demais, sexualizado demais. Idealista a seu modo, busca a pureza lambuzando-se com as precariedades que a vida lhe oferece.

Tal como os números primos que encimam os fragmentos do texto, os personagens de Corpo presente são divisíveis por eles mesmos e por um. O que João Paulo Cuenca propõe é um jogo de identidades sem vencedores ou perdedores, mas com uma regra rígida, a da escrita como forma de enfrentar a vida.

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"Gostaria de escrever algo como 'as grandes cabeças da minha geração', mas essa é toda uma linhagem de chatos queixosos. Encaro seus olhos e só vejo o reflexo do vazio em cada um de nós, entre óculos de aro grosso, orelhas amassadas, sob cabelos pintados de loiro, em diários na rede, programas de auditório e sessões sofisticadas de cinema, é tudo a mesma grande coisa, só a repetição de padrões regurgitados e atitudes velhacas, como se nada mais houvesse ou fosse possível fora dessa nostalgia vazia.

Minha máquina de digerir só não consegue desintegrar Carmen. É a única que sobrevive sem pudor, andando nua por essa necrópole sem fim, pisando seus pés pequenos sobre os mortos, esmigalhando pedaços de carne e tropeçando em ossos. Esbarrando nos corpos sem vida, eu sigo descobrindo Carmen pelas ruas, em cada janela fechada,por trás de esquinas, entre cada espelho quebrado, cada noite perdida."

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