Recebo opiniões e resenhas sobre o "Corpo Presente" neste email.

Com a sua autorização, publico aqui. Os comentários mais recentes estão no final da página.

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Marçal Aquino

"João Paulo,

Que livro, hein? Li seu Corpo presente de uma enfiada, no final de semana. Fiquei muito encantado com a maturidade do texto. Escrito de forma precisa, vigorosa e sempre com muita paixão. É uma daquelas obras (cada vez mais raras hoje em dia) em que a gente sente logo que o cara "está falando de dentro", que conhece os territórios que visita com a ficção, que esteve lá, enfim, sabe do que está falando. Fazia tempo que uma narrativa não me impressionava tanto. É um puta livro, João. Parabéns. Se vier lançar em SP, não deixe de me avisar, ok?

Um grande abraço

Marçal"

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Henrique Neto

http://www.tem.blogger.com.br

"Quem é Carmen?

Apenas um personagem, tal como Alberto? Ou seria Carmen todas as mulheres de J. P. Cuenca?

Pouco importa. Não faz sentido querer saber respostas para perguntas menores depois de se ter lido Corpo Presente e ter visto pela ótica muitas vezes canhestra do autor, histórias saborosas de muitas Carmens que vivem em Copacabana, ou em qualquer outra parte onde haja alguém muito atento para radiografa-las.

Muitos olharão com desdém para ele, outros com entusiasmo espetaculoso, mas ninguém poderá fingir que aos vinte e cinco anos, nascido no conforto da classe média carioca, há um escritor maduro e de estilo. João Paulo Cuenca senhores, fazendo par com outros tantos jovens escritores, já tem seu lugar reservado nas empoeiradas prateleiras da literatura. E ninguém dirá que literatura só pode ser feita em livros, pois esse moço já a fazia desde seu aclamado blog, o Folhetim Bizarro .

Corpo Presente é livro para se ler de uma única vez. Nele, se desnuda um jovem escritor sem preconceitos, que revela suas entranhas, ainda que inventadas.

Senhoras e senhores o escritor está nu. Naturalmente nu, como só é bela a nudez. Da primeira a última página, é possível seguir o caminho de sulcos abertos na pele em desenhos disformes, feitos por ele mesmo, o amante de Carmen. "

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Santiago Nazarian

"É um horror. Um pesadelo. Fiquei com pena de você. Nem sabia que essas coisas todas existiam. Se você as viveu, devia ir passar o resto da sua vida numa fazenda cheia de carneirinhos. Se é tudo criação, devia ser morto a facadas hoje mesmo.

Quero dizer, é praticamente um livro de terror. Uma doença. No qual o sexo perde todo o sentido afetivo, erótico ou até mesmo pornográfico e se torna uma tortura. Cada ejaculação é uma assassinato.

(Nesse aspecto, me lembrou um pouco o filme "Irreversível", já viu?)

Obviamente, não dá para questionar a qualidade poética, estilística, blah, blah, blah. Você sabe bem o que está fazendo.O ritmo é interessante, não exatamente de um romance, mas também não é outra coisa. É um ritmo próprio, "cuenquiano".

O que eu posso dizer? Gostei? Acho que sim. Dá vontade de ler umas passagens de novo. Tem imagens fortes. Mas não me fez bem. O que importa é que você é um escritor que importa. Faz diferença. Tem um universo próprio, e acho que é isso que todos devem buscar.

O que eu não gostei de jeito nenhum? Não sei. Talvez seja carioca demais, digo, muito situado. Pode perder um pouco a universalidade. Mas de repente era o que você queria...

Isso é tudo o que eu posso dizer antes de mais um gole de vodka. Parabéns, sinto muito, sei lá. De qualquer forma, você sabe que eu não entendo nada de literatura e também estou infestado de doenças."

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Joca Vidal

http://www.quatroevinte.blogger.com.br/

Já li o livro do JP há uma semana, mas só agora me sinto disposto a falar sobre ele. Corpo Presente é um livro perturbador. Seus personagens, Carmen e Alberto, são perturbadores. Vivem numa Copacana doentia, onde a podridão está mais presente do que nunca em ricos detalhes que envolvem, quase sempre, sexo e perversão. São raros, se não inexistentes, os momentos singelos que estes personagens passam durante a leitura de suas 144 páginas. JP não conta uma história, mas escreve capítulos 'soltos', sem uma ordem aparente, que se transformam em contos sobre duas pessoas (às vezes três com o narrador) que praticam atos sujos, repugnantes, daqueles que você só pensa consigo mesmo, nunca imaginaria ler em algum lugar.

Estes capítulos, numerados com números primos, explicitam que uma história não deve ser entendida e nem seguida. Despretenciosamente deve-se degustar Corpo Presente, como se fossem acontecimentos isolados entre si, porém passados em Copacabana e por personagens com os mesmos nomes em todos eles. No decorrer da leitura, o leitor tira suas próprias conclusões e estas mudam de pessoa para pessoa, é praticamente impossível alguém entender o livro da mesma maneira que uma outra o fez. Para mim, por exemplo, "Alberto" e "Carmen", no começo do livro, ainda "estão se conhecendo". Os fragmentos de história são mais densos e menos doentios do que no final. Parece uma música que começa lenta e vai ficando pesada no meio para estourar quando está acabando.

Mas no geral o que se percebe é que uma nova literatura, ríspida, agressiva e genial está surgindo. Parabéns, JP !

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Juliana Hollanda

http://www.lovumadly.blogger.com.br

Todas as mulheres de Copacabana

Num mundo globalizado, massificado e descartável ter em mãos um exemplar de "Corpo Presente" de João Paulo Cuenca é uma dádiva.
Misturando sensações a cada troca de página JP nos guia por uma Copacabana sórdida, despudorada e verdadeira construindo um panorama de realidade e ficção que altera nossos sentidos.

O coração acelera, a pressão arterial se desestabiliza e o estômago dói com suas verdades. A cabeça pensa freneticamente, sem rumo. Fica impossível fechar os olhos. Sucumbir.

A leitura absorve e nos prende em uma teia de acontecimentos verossímeis e nos leva à introspecção até que nos percebemos em um labirinto de idéias e contradições. Desta forma, nos livramos de todos os preconceitos mergulhando em uma atmosfera longe do previsível.

A linha narrativa gira em torno de dois personagens que se multiplicam ao longo do livro como uma espécie de "agentes Smith" da literatura. A fluência do texto de JP é sensual e por muitas vezes desejamos ser parte integrante deste emaranhado de palavras entrelaçadas.

A todo tempo desejamos encarnar Carmen mesmo que raramente tenhamos coragem para assumir esta posição. Brilhante! Incrível! Corpo Presente não se cala e expõe claramente a opinião de um jovem autor que poderia ser o porta voz desta geração entorpecida, questionável, livre, inconstante e adormecida da qual qualquer um com mais de 21 anos faz parte.

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Bruno Menezes

Meus parabéns pela narrativa simples e concisa, relista, na qual Copacabana é desvendada sob todas as suas nuances, nua e crua. É um livro que me lembra muitas situações por mim mesmo vividas, neste universo que se chama Copacabana.

E ficaremos a procurar e reverenciar Carmem até o fim de nossos dias, como se ela fosse a única coisa que valesse a pena correr atrás nesse mundo. Aliás, Fausto Fawcett deve estar morrendo de inveja, pois enfim ele encontrou alguém que parece conhecer Copacabana como ele. Já pensou em dar esse livro pra ele ler?

Parabéns por essa sua primeira obra solo, e que venham outras com esse mesmo dinamismo.

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Déborah Carvalho

Comprei o livro. E li. Assim, de uma só vez. Porque o teu ‘corpo presente’ não me permitiu a sua ausência. E acho que doeu mais por isso.

Sabe o que é mais estranho? O livro não me acrescentou nada. Ele me arrancou coisas. De uma forma despudorada, me senti como a criatura (criador?), devassada, estuprada, arrancada a pele, exposta as entranhas, às entranhas. Me deu medo. Me deu dó. Não de você, de mim.

Mas não se culpe. Me sinto grata.

Vou reler e reler, para achar mais um pouco de mim dentro de você(s).

Parabéns.

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Lia Amancio

www.boneca.blogspot.com


- E aí, cara?
- Beleza?
- Beleza!
(...)
- E aí, gostou do livro?
- Adorei!
- Caralho, você realmente leu?
- Lógico, vou comprar pra botar na estante sem ler? E é gostoso, flui rápido.. você faz os capítulos pequeninos mas tem vocabulário rico, boas construções, algumas metáforas sensacionais.. isso faz toda a diferença!

É que desde a época do Folhetim Bizarro que eu leio o João Paulo, que ainda calha de ser um dos meus guitarristas preferidos no 'mundo real'. O garoto tem um talento excepcional para a arte da escrita - e consegue transformar temas aparentemente escrotos como 'sexo sujo', drogas pesadas' e 'rock ruim' em boa leitura.

Primeiro, no blog de pequenos contos, JP usava esses temas não por gratuidade, mas para dizer o que todo mundo pensa mas não tem coragem de explanar.

Agora, em Corpo Presente, João fala de Carmen, todas as mulheres do mundo. Carmen é mãe, é esposa, é ombro amigo, é sexo sem compromisso - no entanto, a grande musa do livro não é mulher alguma: é Copacabana, todos os bairros do mundo. Em sua descrição das ruas, apartamentos, bares e boates, JP realmente te ambienta na cidade que é Copa - e eu, na minha casinha rosa ali perto mas não exatamente lá, consegui sentir o cheiro de suas ruas, ver as cores das luzes dos inferninhos e esbarrar com seus coadjuvantes. Isso é ser bom - mais do que simplesmente descritivo, você realmente consegue envolver o leitor.

E "Corpo Presente" te envolve mesmo. Confira

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Marcelino Freire

http://www.eraodito.blogspot.com/

ROMANCE TOMANDO CORPO

Acabei de ler o romance Corpo Presente, do carioca João Paulo Cuenca (editora Planeta) e fiquei assim, querendo dizer pra mim: é o romance que eu faria se eu tivesse de escrever um romance. E eu estou escrevendo. Não sei se termino. Trata-se, no meu caso, de GonzaH, história de um ninfeto perdido numa encruzilhada, sei lá, numa cidade fora do mapa, longe do tempo. Idem, adorei as perambuladas que o personagem central do romance do Cuenca dá por Copacabana. A raivosidade lírica do Cuenca. A displicência cardíaca. Explico: o ritmo de um coração de artifício. Explico de novo: estou viajando. Apenas quero dizer que, esqueleticamente falando, adorei a estrutura do livro do Cuenca. E da melancolia do livro do Cuenca. E da falta de amor no livro do Cuenca, seria?: "Quando Carmen me manda chupar, encaixo o nariz na sua bunda lisa e branca, estico a língua dentro do seu corpo. O gosto é ácido, amargo, e eu penso que, a partir daquele momento, o meu principal objetivo na vida é fazer Carmen ficar doce. É a única coisa que merece o meu esforço". Trepadas sem nenhum gozo real. De uma beleza que dá nojo etc. e tal. De uma acidez cínica que admiro. Gosto deste vazio que me anima. Da perversão de uma mãe que se siririca enquanto amamenta a cria, por exemplo. Puta que pariu! Que coisa bonitinha! Nunca vi odiar tanto criança quanto o protagonista: "Um dos acontecimentos mais tristes que pode existir nesse mundo é um bebê feio". Parágrafos hilários discorrendo sobre troca de fraldas, passeio no carrinho, sexo em grupinho. Tudo num livro muito bem escrito - mesmo que a vida de merda (de bebê) que a gente leva não mereça tudo isso. É nesse ritmo que meu romance também caminha. Ou pelo menos tenta. Eu chego lá (só não sei onde), João Paulo Cuenca.

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Rogério Gontijo

Eu me lembro do Blog: Folhetim Bizarro, perdi horas lendo e relendo cada palavra. Cada magnitude escondida nas entrelinhas. E o melhor de tudo, não existiam entrelinhas. Alguém que escrevia tudo o que eu queria e precisava de ler. Alguém que ruminava frases com perfeição e esplendor. Me lembro que parei de escrever na época. Comecei a me achar um escritor medíocre. Tudo o que eu queria escrever, cada frase era poema para meus ouvidos, me lembro que cheguei a pensar: "como algo pode ser tão pessoal se não é meu?"

E o livro que eu comprei pela internet enquanto eu conversava com minha "amiga" de sp chegou, a perfeição da narrativa, sangue, suor e lágrimas em cada linha. Cada palavra é poema romântico mal escrito, cada vírgula é um porém mal vestido, cada parágrafo descobertas de um mundo em construção, um mundo arruínado por sentimentos desconjuntados. Perfeição. Rebeldia. Interjeição. Eu concordo com a opinião do Marcelo Rubens Paiva, autor de um dos livros mais perfeitos dos últimos tempos: "Feliz ano velho", que considerou o livro deslumbrante e com uma semântica bem elaborada. Sem sombra de dúvidas, João Paulo Cuenca, a grande descoberta de 2003.

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Vany Paiva

Seu livro é o que há de mais moderno em literatura pós-moderna, João Paulo.

Pra mim, foi inevitável reconhecer algumas semelhanças entre sua estrutura narrativa (ou a ausência dela) e outros títulos como "Estorvo", "Hotel Atlântico" ou "Canoas e Marolas". Tanto o primeiro, do Chico, quanto os dois últimos, do Noll, trazem, assim como o conteúdo de "Corpo Presente", personagens não identificados, andarilhos, observadores angustiados de objetos turvos e embaçados.

Na forma, porém, acho que você conseguiu romper ainda mais com a linguagem de seus antecessores. A angústia, insatisfação e desencanto romântico de seus personagens são devidamente sentidos pelo leitor que, junto com eles, não consegue enxergar claramente o que se passa na história. Até porque, ela, a história, se monta sob a forma de patchwork, fragmentos desconectados que apenas eventualmente se deixam ler. O tripé clássico de início, meio e fim espatifa-se para dar lugar ao presente contínuo da própria vida, dos momentos estanques do tempo e da ruptura da ordem que, como se desconfia, talvez nunca tenha existido.

A única crítica que faço ao livro (e só faço em nome de possíveis e prováveis leitores futuros, não em meu próprio) é que "Corpo Presente" talvez seja melhor depreendido por uma geração já familiarizada à descontinuidade do olhar. Seu estilo é - assim como boa parte da geração que hoje que gira em torno dos 25 anos e seus arredores - híbrido, plural, estilhaçado como nossos olhares, gostos, misturado de referências e sempre retro-alimentado por nossos pares. Em resumo, diretamente associado à agilidade televisiva e videoclipada das edições de imagem. Digo isso porque tenho dúvidas se meu pai, por exemplo, será capaz de terminar de ler seu livro sem franzir as sobrancelhas e se perguntar: "Mas sobre o que é esse livro, afinal?". Talvez ele não seja capaz de notar que é a forma a principal emissora de conteúdo, materializando aquela velha frase do McLuhan que diz "o meio é a mensagem". Abandonamos o "o quê" e o "por que" para abraçar os "comos".

Os números primos que você, espertamente, utliza para ao mesmo tempo para descontinuar e confundir, parecem reforçar essa pluralidade particular que já se tornou, hoje, marca da singularidade de nossa época, rica em contradições e excentricidades.

Há ainda muito mais a refletir e questionar sobre seu texto. Suas pedradas contra nossa existência, nossa geração, nossa vidinha, merecem ser colhidas como pérolas escondidas em ostras trincadas ao longo do livro. Sublinhei diversas passagens, frases e análises escritas por você que me deram imenso prazer de perceber essa característica genuína dos bons escritores que é conseguir decodificar um espírito coletivo e traduzi-lo em palavras.

Fique tranqulio, você não figura naquele "ramerrame e a gente é tão genial que ninguém nunca ouviu falar".

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Daniela Abade

"Dica Perfeita

Não costumo fazer isso por aqui, mas também não costumo me assombrar com a qualidade de um romance, como aconteceu com Corpo Presente, de João Paulo Cuenca. Ainda estou sob o efeito do livro - li em pouco mais do que uma hora, liguei para meia dúzia de amigos, deixei recados histéricos em diferentes secretárias eletrônicas e acabei aqui, dividindo essa descoberta da mesma forma que o autor dividiu a personagem Carmen - com a diferença que na estranha operação que ele realizou, acabou somando centenas de mulheres numa mesma personagem.

Ao contrário de alguns autores, que acreditam que ser classificado como romântico é negativo, é ofensa, é fora de moda, João Paulo transgride sua geração escancarando romantismo em cada linha de sua obra. Um romantismo visceral, cruel, doentio e sem-vergonha. Não vou me alongar aqui com uma crítica a respeito do livro, porque nem me acho apta para tanto. Só termino dizendo que desde As Vinhas da Ira, de Steinbeck, não leio e releio uma página, com tanto susto, paixão e incredulidade. Deixo abaixo a tal página para vocês tirarem suas próprias conclusões:

Espero uma pausa. Abro os botões da camisa um a um. Arranco a pele do meu peito com as unhas, uso a faca e o garfo para estripar meu coração entre costelas, o sangue respinga pela mesa, espirra no rosto impassível e nervoso de Carmen, cheio de espinhas, o choro escuro. Seus olhos ficam mais claros com a luz da praia, enxergam-se nos meus. Faço tudo sem desviar o olhar. Carmen agora tem os cabelos pretos vestidos do sangue que escorre até sua boca, cai pela nuca e pelas costas lisas e brancas. Seguro seu queixo e nos beijamos. De pé. Carmen ajuda a abrir mais o tecido do meu tronco, me abraça por dentro da pele - seus dedos pequenos deslizam sob minhas vértebras, os mamilos duros encaixam-se nas minhas costelas aparentes. Seu cheiro agora é meu sangue. Com as mãos ainda trêmulas, entrego o pedaço de carne vermelha, jogo no prato.

Chamo Carmen de mal-criada e, num estertor ridículo, digo:

"Come"

A escada de pedra escorre vermelho até o mar. Peço a conta ao garçom - Carmen vai pagar."

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Chico Mattoso

"gran canalha,

que maravilha a resenha do bernardo carvalho, hein? bela surpresa: me pegou logo cedo, com a xícara de café na boca. parabéns, rapá. você merece. aliás, sei que é jogo duro competir com os comentários do cara, mas o fato é que só ontem terminei de reler o teu livro - e queria te escrever agora, enquanto a coisa ainda tá quente. o negócio é o seguinte:

o que eu acho é que você escreveu um livro sobre a pureza. é um livro que a gente lê sem saber se está se enchendo de lama ou tomando uma ducha definitiva - e talvez não haja mesmo a menor diferença. às vezes a gente patina ali no meio, fica difícil manter-se em pé. algumas cenas me deram um asco parecido com o que sinto quando leio nelson rodrigues. acho que você tem um leve parentesco com o tiozão, não tanto pela crueza das passagens mas principalmente pelo que parece estar por trás delas: a necessidade se encontrar uma verdade em meio ao tumulto. há um risco nisso, um risco que todo bom livro corre, que é o de que essa busca engula a literatura e transforme a ficção num rebolado epilético. você passou por essa, de cabeça erguida.

mesmo aqueles trechos que me incomodavam, onde você fica explicando demais a paranóia - eu achava que o livro podia ser mais "substantivo" - agora desceram direitinho. o livro tem uma estrutura que permite os excessos, quer dizer, que os absorve e torna coerentes. só não saquei essa tal de "paudurescência". que porra é essa? aqui em são paulo não tem disso não, meu caro.

eu não sei pra onde você vai depois dessa, jp. estou curioso pra ver o que vem por aí. mas você não me engana: por trás da merda toda, por trás do mar de porra e sangue e cus latejantes, está um puro, um puríssimo, da linhagem das calcinhas de renda e das nuvens de algodão. e isso é realmente do caralho.

grande abraço,

chico "

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Mariel Reis

"João gosta de música. Como um xará seu, também João, de gosto refinado e ouvido apurado. Porém há um João que detesta música, embora não lhe falte ouvidos para captá-la no fazer do seu ofício. São joões diferentes. Com uma obstinação em comum: o fazer impecável, um perfeccionismo criativo e um lirismo quase anti-lírico na recriação que fazem da realidade. João, o que gosta de música e é meu amigo, é Paulo e também Cuenca. Os outros joões todos já devem estar cansados de saber quem são: João Gilberto e João Cabral.

João Paulo Cuenca do primeiro xará herda o ouvido apurado, a maneira de
contorcer o som e a preferência por uma música minimalista, sem artifícios fáceis. Essa música repetitiva dá sentido (mas não direção) a sua infinita repetição que é uma fascinação. Este minimalismo é musicalmente um Ostinato. Ou seja, a repetição de uma série aparentemente inconclusa de sons idênticos que parecem diversos, pois a memória musical esquece. São Sonoridades encantatórias. Avança João Paulo Cuenca desta maneira, aliado à herança de seu outro xará, ilustre manejador das palavras, que passa ao neófito sua lição dificílima: arrumá-las de modo invulgar para que o grupo emita em conjunto um som difícil, áspero e até desagradável, contudo exato.

Construindo entre eles a sua herança, Cuenca executa um romance de personagens intercambiáveis. Repousando numa topografia amorosa seus personagens fazem um percurso na cidade, inscrevendo-se numa geografia toda particular de amor, ódio, abandono. A literatura repetitiva trata de resolver a contradição entre progressão e regressão ao repetir mais de uma vez a narração. Trata-se de um jogo de narrações que quer superar a contradição entre realidade e ficção. De fragmentos autônomos e de igual valor, porém o autor reserva-se o direito de exercer um certo determinismo narrativo. As coisas não são, sucedem, mas, em Literatura, autoridade vem de autor.

Texto escrito em parceria com Cabrera Infante, João Gilberto, Philip Glass e algo de Mariel Reis"

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